Ética Empresarial / Recuperando a reputação corporativa 

Recuperando a reputação corporativa 

Neste artigo descrevo como uma S.A. atuou para recuperar a sua reputação corporativa após um desastre ambiental. O caso em análise é o da mineradora Vale S.A., no desastre no município de Brumadinho, ocorrido em 2019. Considero brevemente as respostas da empresa para reparar os danos e recuperar sua reputação. Exponho que a resposta da Vale envolveu repensar seu propósito, reparações substantivas e a comunicação de tais ações. 

Descrição do caso

O caso da Vale S.A. consiste na crise decorrente do desastre ambiental ocorrido em Brumadinho, no estado de Minas Gerais. O que aconteceu foi uma ruptura de uma de suas muitas barragens de armazenagem de resíduos de minério de ferro, no dia 25 de janeiro de 2019. Esse não foi o único acidente que a Vale enfrentou. Em 2015, a barragem em outro município, Mariana, MG, também teve grande impacto socioambiental. No entanto, a magnitude do desastre em Brumadinho foi enorme: mais de 270 pessoas morreram e a tragédia ambiental matou fauna, flora e a vida de um rio da região. Entre os mortos, estão empregados da empresa e comunidade local, incluindo crianças e gestantes (BBC News Brasil, 2019).   

Hoje, ao se consultar o site da empresa, encontramos o seguinte pronunciamento de propósito: “Existimos para melhorar a vida e transformar o futuro. Juntos.” Ademais, detalha-se que: “Acreditamos que a mineração é essencial para o desenvolvimento do mundo e que só servimos a sociedade ao gerar prosperidade para todos e cuidar do planeta” (https://www.vale.com/pt/home). Contudo, é preciso analisar esse propósito com base no retrospecto da empresa, em especial em como ela reage a tal crise. (sobre propósito, veja o artigo Propósito organizacional e bem comum ).  

De forma geral, o brasileiro sempre atribuiu grande valor a Companhia Vale do Rio Doce como uma “joia” brasileira. A atual Vale S.A. surgiu como uma empresa estatal, a qual passou por um processo de privatização em 1994. Curiosamente, tal privatização não desestatizou a Vale por completo, pois outras empresas públicas e fundos de pensão (por exemplo, a Previ do Banco do Brasil) compraram parte da companhia, e outras fatias foram adquiridas por empresas internacionais (Lazzarini, 2011). Assim a Vale se torna uma S.A., respondendo à expectativas de acionistas. Atualmente a companhia tem uma atuação global. No Brasil, está localizada na região Sudeste e em alguns estados do Norte.

Repercussão do caso e stakeholders

O desastre ambiental tem ampla repercussão na opinião pública e em âmbito político (foi aberta a CPI Bruma a respeito), com discursos antagônicos sobre o problema. Enquanto a empresa enquadrava a situação como “acidente”, representantes de entidades nao governamentais e outros atores descreveram a situação como “tragédia”, “desastre ambiental”, “desastre mineiro”, “crise” e “crime ambiental”. Na análise de responsabilidade corporativa, o assunto foi delineado como crime (Alves, 2023). 

Além dos atores envolvidos na discussão do problema, muitos foram os stakeholders impactados, tanto internos quanto externos à organização. Dias após o ocorrido, os diretores da empresa foram os primeiros a se pronunciar. Diante do acidente, muito se discutiu sobre a viabilidade ténica das barragens, as quais foram aprovadas mediantes relatórios técnicos de engenheiros alemães, da década de 70-80. É importante ressaltar que, antes da Vale operar em Brumadinho, era a empresa Ferteco Mineração, controlada pela ThyssenKrupp Stahl AG (TKS), que extraía minério de ferro.

Diante dos estragos e do número de vítimas, a comoção social foi grande. Muitas famílias aguardavam pela localização dos falecidos no rastro de destruição que o rompimento da barragem deixou. Essa busca mobilizou equipes da Defesa Civil e Bombeiros Militares, os quais trabalharam meses na região. A Figura 1 indica atores envolvidos. 

Figura 1. Atores envolvidos no desastre em Brumadinho. Fonte: Ames, Beltrani e Mamud (2023), em trabalho para a disciplina de Ética y orden social

Entre tais atores, estão importantes stakeholders da Vale: empregados, acionistas, clientes, fornecedores, governo, imprensa (TVs, jornais), organismos de proteção ambiental, entre outros.  Um reflexo imediato se vê no valor das ações da empresa, o qual sofreu queda acentuada nos dias que se seguiram à tragédia. Pouco tempo depois, seguiu variando dentro de uma certa regularidade.

Respostas substantivas da Vale

Diante dos grandes impactos socioambientais, a empresa trata de responder à opinião pública e cooperar no trabalho de apoio e indenização das famílias das vítimas. Apesar dos esforços indenizatórios (https://www.vale.com/pt/indenizacoes), a empresa assumiu um risco alto ao trabalhar com a barragem de contenção de resíduos em capacidade máxima. Além disso, há a questão da aprovação técnica de tais barragens ser a mesma vigente desde a década de 70-80. 

 A resposta substantiva da empresa (Truong, Mazloomi, & Berrone, 2021) veio em fevereiro de 2021, quando firma um Acordo de Recuperação, juntamente com o Gobierno de Minas Gerais, o Ministério Público de MG, o Ministério Público Federal e a Defensoria Pública de MG. Esse acordo representava na prática que a Vale assumia todos os custos para reparação socioambiental. 

Essa frente consiste em reparações socioeconômicas, com a Vale atuando em duas formas possíveis: (1) a empresa paga pelos projetos e o poder público os executa ou (2) a empresa paga e os executa. Além disso, há também uma segunda frente chamada Respostas rápidas, a qual se destina ao desenvolvimento municipal. Por fim, uma terceira parte contempla a reparação socioambiental, para a qual se permite un custeio sem limites financeiros. O objetivo é recuperar a situação ambiental anterior ao desastre, o que ocorrerá por meio de compensação ambiental. A ampla divulgação dessas frentes de resposta contribui para a recuperação da reputação corporativa. Contudo, os stakeholders têm visões diferentes sobre se a empresa foi suficientemente responsável.

Comunicação corporativa dirigida a stakeholders

Além dessas ações substantivas, o desastre contribuiu para uma mudança no posicionamento da empresa em relação a sua responsabilidade socioambiental. Aparentemente, a mineradora de ferro, que é por si uma indústria extrativa de alto impacto ambiental, tem tentado realizar sua atividade principal de forma mais sustentável. Além disso, está buscando reparar os danos socioambientais de forma contínua ao longo do tempo. 

Por exemplo, para comunicação institucional, o site da empresa relata processos de reparação, dados e cifras das indenizações. Além disso, há um espaço específico para comunicar tudo o que diz respeito ao Acordo de Reparação de 2021 (https://vale.com/reparation). (sobre comunicação corporativa, veja o artigo Como assegurar a reputação corporativa? O papel da comunicação).  

Outra resposta foi a disponibilização em meio digital de um Manual explicativo do Acordo de Reparação Integral, em linguagem acessível. Por fim, uma ação menos publicizada é o investimento da empresa em locomotoras 100% elétricas, na região afetada pelo desastre.  Elas prometem reduzir a emissão de gases e ruídos nas comunidades próximas. Esses esforços comunicativos contribuem diretamente para recuperar a reputação da companhia.   

Conclusão

A Vale tem respondido à demandas urgentes e reparatórias frente ao desastre em Brumadinho mediantes ações substantivas. Complementarmente, a comunicação assume um papel chave para sua reputação e relação com stakeholders. Embora aparentemente tenha recuperado sua reputação, para a sociedade se acentuou o risco que as atividades empresariais podem representar, o que afetou, evidentemente, a confiança que se deposita na Vale e em empresas em geral. A lição aprendida é que uma gestão preventiva e uma boa comunicação são fundamentais para que a reputação retrate o real comprometimento da empresa.

Referências

Alves, E. B. (2023). Gestão de Espaço de Fala e Análise das Condições de Produção de Versões sobre um Crime Corporativo: O Caso do Rompimento da Barragem B1 da Vale S/A em Brumadinho (MG). Organizações & Sociedade, 30, 104, 145-178.

BBC News Brasil (2019). Brumadinho: o documentario da BBC (parte 1). Retrieved from:  https://www.youtube.com/watch?v=YIN02W40UTE&t=208s

Lazzarini, S. (2011). Capitalismo de laços: os donos do Brasil e suas conexões. Rio de Janeiro: Elsevier.

Truong, Y., Mazloomi, H., & Berrone, P. (2021). Understanding the impact of symbolic and substantive environmental actions on organizational reputation. Industrial Marketing Management, 92, 307-320. https://doi.org/10.1016/j.indmarman.2020.05.006 

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