O papel decisivo do ser humano e das relações organizacionais com diferentes stakeholders é o tema do livro de Ignacio Ferrero (2021), intitulado “Ética de la actividad económica y empresarial“. Esses são elementos cruciais da ética empresarial, como se apresenta a seguir.
Introdução
No livro Ética de la actividad económica y empresarial, publicado em 2021 pela editora EUNSA, Ignacio Ferrero reúne conceitos centrais de ética empresarial. O autor enfatiza o âmbito humano da ética empresarial e as relações corporativas com stakeholders (grupos de interesse). Por ser uma publicação em espanhol, é oportuno apresentar uma resenha sobre o livro.
Tal obra apresenta assuntos essenciais sobre a ética na prática, o que está em jogo em decisões e como as ações individuais influenciam no aperfeiçoamento ou crescimento moral. Mais ainda, discute razões para se buscar o bem e características de uma governança corporativa baseada na relação com stakeholders.
A título informativo, Ignacio Ferrero é Professor de Ética Empresarial na Universidade de Navarra (Pamplona, Espanha), onde também atuou como Diretor do Departamento de Economia e Negócios. Com formação em Economia e Filosofia, tem sido um dos autores mais contributivos de ética das virtudes. E tem publicado ou editado dezenas de artigos e livros, como o Handbook of Virtue Ethics in Business and Management e Business Ethics: A Virtue Ethics and Common Good Approach.
1. Ética como condição de equilíbrio
O capítulo 1, ética como condição de equilíbrio, aborda a ética pessoal e as dimensões da ética emprerarial. Baseia-se na noção teleológica de que a natureza humana se inclina para alcançar seu fim último, a felicidade. A ética é entendida como a ciência que estuda a ação humana e sua orientação para o bem, permitindo que as pessoas aperfeiçoem sua natureza.
Em seguida, o capítulo apresenta perspectivas que buscam explicar as razões de ser ético: com base em circunstâncias (circunstancialismo), com base em consequências ou resultados (consequencialismo), com base em normas e regras (normativismo) e com base no crescimento do caráter (ética das virtudes).
Por fim, elenca as dimensões da ética empresarial: individual, gerencial, organizacional e social, destacando que “la ética de la actividade económica y empresarial debe partir de un adecuado análises de la ética personal” (Ferrero, 2021, p. 17).
2. A ética da ação humana
A ética da ação humana trata de como se deve examinar uma ação moral. O autor explica que mediante o juízo moral as pessoas tomam decisões, distinguindo entre dois tipos de juízos:
- Juízo de eleição ou escolha (que ocorre antes da ação): esse juízo prático é suportado pela prudência – com a qual se levam em conta valores, princípios, e conhecimentos técnicos – além de conhecimentos práticos – experiência moral e interpretação.
- Juízo de reflexão: trata-se de um julgamento em que a prudência, iluminada pela consciência e facilitada por virtudes, permite analisar circunstâncias e eleger.
Em uma ação específica, por exemplo, podemos examinar as intenções do agente, as circunstâncias e as consequências envolvidas e o objeto substantivo da ação.
3. Temas éticos frequentes nos negócios
A ética empresarial não está livre de críticas e problemas. Isso é contemplado no capítulo 3, no qual o autor descreve dilemas éticos empresariais. Entre eles, aponta para a ética em jogo (ou a falta dela) em contratos, apropriação indevida, informação confidencial, conflitos de interesse, delações, contabilidade criativa (manipulações contábeis), suborno e extorção.
4. Propósito organizacional e modelos de governança
Para conter tais problemas há de se seguir um propósito mediante uma governança alinhada com ele, o que se discute no capítulo 4. Nele, o autor problematiza o propósito da empresa frente aos interesses de acionistas e demais stakeholders.
A princípio, há três modelos de governança: o modelo de shareholder, ou centrado nos acionistas; depois o modelo de stakeholders, o qual atenta para interesses de diferentes grupos; e, por fim, o modelo que considera a empresa como cidadã corporativa.
Em tais modelos, fica evidente a importância das funções de diretores e líderes. Liderança e boa comunicação, portanto, são vistas como competências essenciais da governança corporativa.
5. Políticas éticas na empresa
No capítulo 5 – políticas éticas na empresa – se destacam os elementos da cultura corporativa e da cultura organizacional.
As políticas éticas envolvem os aspectos formalizados, tais como declaração de valores, códigos de conducta, comitês de ética e compliance, código de boa governança, sistemas de comunicação e formação, próprios da cultura corporativa.
A cultura organizacional, por sua vez, representa a ética como é praticada ou como de fato as coisas são realizadas.
6. Empresa e stakeholders internos
Chegando ao sexto capítulo, encontramos o tema da empresa em relação aos seus stakeholders internos, os empregados. Nesse contexto interno, o autor reconhece que o trabalho dos empregados pode gerar bens subjetivos, objetivos e sociais. Destaca, ainda, o aspecto motivacional do trabalho.
Sobre o assunto, Ferrero (2021) sugere que as motivações humanas intrínsecas, transcendentes e direcionadas para o bem dos outros podem superar motivações materiais, individualistas e extrínsecas.
7. Empresa e stakeholders externos
Nos capítulos 7 e 8, o autor aborda o papel da empresa em relação a stakeholders externos, explorando temas sensíveis sobre os consumidores, o governo e a sociedade.
Sobre os primeiros, aborda direitos dos consumidores e ações de marketing, envolvendo temas como marketing responsável vs. formas ilícitas de marketing. Para ilustrar, discute diferentes tipos de dumping (politicas de preço desleal) praticados por empresas.
Em relação à governo e sociedade, discute princípios centrais da relação entre eles. No elenco de tais princípios estão o bem comum, subsidiariedade, solidariedade e a participação. Tais princípios permitem examinar questões como: a eticidade da cobrança de impostos, de investimentos privados e de estratégias empresariais como o deslocamenteo da produção da empresa para outro país.
Conclusão
O livro de Ferrero (2021) oferece um entendimento prático da ética empresarial. Além de apresentar de forma acessível as perspectivas éticas clássicas, também ilustra os dilemas marcantes que ocorrem para os agentes de mercado. Acredito que sintetiza um retrospecto de experiencia teórica e prática do autor.
É uma fonte recomendável para estudantes, gestores e líderes, pois fornece um panorama das questões-chave sobre decisões e dilemas éticos empresariais.
Finalmente, o autor mostra que o âmbito individual é essencial para entender a ética nas organizações, para então abranger cultura organizacional e relações com stakeholders. Além disso, indica fatores a serem considerados no julgamento e decisões. Por fim e, não menos importante, destaca questões éticas envolvidas na relação com diferentes stakeholders.
Referências
Ferrero, I. (2021). Ética de la actividad económica y empresarial. Pamplona, España, Eunsa, 133 p.