Ética da Inteligência Artificial / A inteligência artificial é sustentável? Uma recomendação para empresas

A inteligência artificial é sustentável? Uma recomendação para empresas

Em empresas e negócios, a inteligência artificial (IA) tem sido vista como um recurso estratégico transformador. Tem despertado grande interesse devido ao seu potencial para diversos setores, através da automatização de tarefas, personalização de serviços e aumento das capacidades analíticas e preditivas. 

Contudo, os sistemas de IA também representam riscos para as pessoas e para a sociedade. Eles podem envolver vieses discriminatórios nos dados, ameaças à privacidade e à dignidade humana. Embora a área de Ética da IA ​considere princípios e valores subjacentes a tais sistemas, só recentemente se chamou a atenção para a dimensão material (Crawford, 2021) e física (Floridi, 2024) da IA. Isso sinaliza para impactos no ambiente natural – consumo de energia, água e minerais – e na dimensão social – condições de trabalho dos setores que sustentam a IA, mudanças disruptivas no ensino, e na forma como vivemos (Crawford, 2021).

Olhar para a indústria da inteligência artificial, ou seja, para os múltiplos segmentos industriais que lhe fornecem suprimentos e serviços, pode revelar os reais impactos causados ​​na esfera social e ambiental. Um exemplo é a cadeia produtiva de microcondutores e sua importância geopolítica, como exposto por Chris Miller (veja o artigo sobre o livro de Miller). Entretanto, a indústria da IA e seus impactos parecem pouco acessíveis ao escrutínio público. Uma melhor compreensão de tais efeitos para as gerações futuras são aspectos importantes no desenvolvimento de modelos de negócios sustentáveis. Estes são aspectos importantes para as decisões de empresas e governos que estão considerando como fazer um uso eficaz e sustentável da IA.

Sustentabilidade da IA

Embora a inteligência artificial tenha apresentado avanços positivos para a sustentabilidade, pouco se sabe sobre a “Sustentabilidade da IA”, ou seja, seus impactos no meio ambiente e na sociedade (van Wynsberghe, 2022). Além disso, a “IA Verde” e a “Sustentabilidade da IA”, tratam mais dos impactos ambientais, mas tendem a ter um escopo limitado sobre impactos humanos, sociais, políticos e institucionais.

A sustentabilidade da IA não deve ser entendida com uma mera questão técnica ou de compliance, e sim envolver uma aplicação ética e sustentável da IA, ponderando impactos de sua cadeia produtiva. Isso envolve reconhecer stakeholders envolvidos e o papel da empresa como partícipe de uma comunidade política (em sentido Aristotélico). Tal ética – compartilhada e dinâmica – deveria conter uma visão de como viver de forma sustentável em um ambiente em que se usa apropriadamente a tecnologia, respeitando-se o lugar que habitamos e que legamos das gerações passadas (a tradição, nos termos de MacIntyre) bem como atuando para que as futuras gerações possam desfrutar de condições semelhantes/adequadas. 

No contexto local, as empresas assumem um papel crucial em torno dessas questões. Trata-se não apenas de gerir riscos e cumprir com um check list de métricas corporativas para a sustentabilidade, mas de ter consistência a longo prazo no monitoramento e contribuição positiva para a sustentabilidade. 

Governança da IA

Conhecer os impactos positivos e negativos da IA é importante para preparar as organizações para uma governança responsiva da IA. O crescimento massivo de sua aplicação exige que as empresas assumam um papel decisivo e responsável nos impactos da IA ​​no planeta, nas pessoas e na economia.

A IA pode contribuir no controle da pegada de carbono e no consumo de energia, mas também emite carbono e consome muita energia, especialmente durante seu treinamento e para manter a sua infraestrutura operacional (como data centers). Socialmente, pode contribuir para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) (Di Vaio et al., 2020), mas pode representar um risco para as pessoas e a sociedade, ameaçando a privacidade e as condições de vida e trabalho. 

O mesmo acontece com relação à governança: pode dar agilidade nas decisões, mas também pode representar centralização de poder, manipulação da informação e excessiva vigilância. Portanto, a IA pode ser uma faca de dois gumes em termos de sustentabilidade, o que requer uma ação prudente por parte dos agentes econômicos.

Referências

Crawford, K. (2021). Atlas of AI: power, politics, and the planetary costs of artificial intelligence. New Haven: Yale University Press.

Di Vaio, A., Palladino, R., Hassan, R., & Escobar, O. (2020). Artificial intelligence and business models in the sustainable development goals perspective: A systematic literature review. Journal of Business Research, 121, 283-314. https://doi.org/10.1016/j.jbusres.2020.08.019

Floridi, L. (2024). The hardware turn in the digital discourse: An analysis, explanation, and potential risk. Philosophy & Technology, 37-39. https://doi.org/10.1007/s13347-024-00723-1

van Wynsberghe, K. (2021). Sustainable AI: AI for sustainability and the sustainability of AI. AI and Ethics,1, 213–218. https://doi.org/10.1007/s43681-021-00043-6

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